Conversas com Profissionais

Desatando os nós do parto

O período da gestação é um momento na vida da mulher em que ela experimenta inúmeras emoções. Transformações sentidas de forma profunda no corpo e na alma. Com o início do trabalho de parto, percebemos a chegada das contrações uterinas - a barriga enrijece para em seguida relaxar. São os sinais emitidos pelo corpo para anunciar que a viagem irá começar, como ondas do mar que nos envolvem num balanço ritmado e nos convidam a mergulhar. Se não oferecermos resistência a esse convite, poderemos embarcar numa jornada de muita intensidade e incríveis descobertas.

Primeiramente, será preciso aprender a lidar com a dor. Compreendê-la como uma resposta natural e fisiológica do organismo nos permite estabelecer um diálogo franco com ela. Porém, o seu limiar é muito pessoal e é importante saber respeitar essa referência. Entender que a dor tem uma função também é fundamental para todo o processo do trabalho de parto. A cada contração, o momento do nascimento se aproxima e aquele tão desejado sonho de receber o bebê está mais perto de se realizar. Nessa fase, vale ter em mente que, da mesma forma que o útero se contrai para expulsar o rebento, precisamos exercer o desapego para entregá-lo ao mundo.

Haverá um momento do trabalho de parto em que vamos experimentar um estado alterado de consciência. Menos interessadas no mundo exterior, naquilo que está acontecendo ao nosso redor, notaremos que as percepções internas ficarão mais aguçadas. Além disso, nossa sensibilidade emocional se revelará intuitivamente. Uivamos! Sim, uivamos. Pois somos tomadas por uma estranha força instintiva que nos conduz de uma forma extraordinária. A mulher selvagem, que habita as profundezas do nosso ser e sabe como parir, vem ao nosso encontro. E como verdadeiras lobas trazemos o nosso filho à luz.

Contudo, durante esse percurso intenso podemos ser surpreendidas por nossas feridas emocionais mais antigas, vindas de um período muito remoto de nossas vidas. Em algum nível do nosso mundo inconsciente podemos reviver a experiência do nosso próprio nascimento e de tudo o que está no seu entorno. Sentimentos como medos, inseguranças e angústias podem tomar a cena e provocar algum desconforto e dificuldade no progresso do trabalho de parto. Podemos nos sentir desamparadas e sozinhas. Desencorajadas e fracas. Esses entraves emocionais que se apresentam durante o trabalho de parto e provocam alguma ressonância em seu avanço são conhecidos como distócias emocionais. Portanto, é importante nesse ponto saber diferenciar a dor física do sofrimento emocional.

O desafio está posto. Logo, é imprescindível que a conexão seja estabelecida com aquele aspecto de força em nós: a mulher empoderada, que irá assumir o protagonismo da cena de parto e vivê-la de forma integral e vibrante. Assim, nos sentimos autorizadas a ressignificar a história de nossas feridas emocionais, isto é, gerar uma nova leitura de fatos arraigados em nosso interior, arejando o vivido e dando a ele outro desfecho.

A beleza desse processo reside no fato de que, por meio de uma via de cura alquímica simbólica, nasce uma mulher mais segura e confiante para cuidar de sua cria. Mãe e filhote estão prontos para seguirem sua jornada. E, do ponto de vista da cria, o parto será, ao longo da vida, um possante referencial para suas transições pequenas ou grandes, para seus saltos no desconhecido, sua entrega e seus mergulhos na confiança, no aconchego da vida.

Joyce Mello

Psicóloga – CRP 59271


Mistérios e aprendizados da gestação

Gerar, gestar, parir e amamentar são expressões do feminino sagrado que foram sendo esquecidas ao longo dos tempos pela mulher moderna. Pensar o nascimento como uma experiência que transcende e eleva a alma da mulher para lugares nunca antes visitados é um desafio de conexão com as dimensões mais profundas do ser. Por meio desse mergulho, temos a possibilidade de encontrar a nossa natureza criativa, que nos permite trilhar um caminho de transformação e de crescimento pessoal.

A gestação percebida como um dos mistérios do feminino nos convida a um exercício de contemplação, entrega e conexão vivenciado a partir do ventre, ou seja, das porções mais instintivas da psique. Durante esse período, a mulher descobre novas formas de comunicação com o próprio corpo e se vê diante de importantes questões relacionadas a sua existência.

Abrir mão do controle e estabelecer um vínculo de amor com o bebê favorecem a atuação da sabedoria da Grande-mãe-natureza. Esse arquétipo universal nos ensina instintivamente que dispomos de um repertório interno rico de possibilidades para o exercício da maternidade. Mas é preciso confiar. Fiar com, fiar junto. Permitir que o poder do feminino profundo de nossa linhagem ancestral seja reverenciado e provoque as devidas ressonâncias tanto na alma como na vida concreta.

Lembranças do tempo de infância podem vir à tona juntamente com o desejo de escrever uma história que tenha um novo desfecho. Memórias remotas emergem e exalam um perfume de saudade no ar. Por outro lado, muitas vezes também somos visitadas por sentimentos sombrios que despertam o medo e a insegurança. Nada mais natural. Luz e sombra fazem parte da jornada. E a travessia se faz necessária.

Acima de tudo, a gestante precisará realizar a passagem do estado emocional de menina-mulher para o de mulher-mãe e assumir esse novo papel em sua vida. O parto, como um rito de passagem, propiciará que o ato de parir – entendido aqui como verbo conjugado na primeira pessoa do singular: “Eu parto” – seja recebido como um convite do universo rumo a uma jornada simbólica de transformação sagrada do ciclo natural vida-morte-vida. Então, através do encontro com seu filho, a mulher-mãe estará se abrindo para o encontro consigo mesma.

Essa viagem é também do bebê, seu psiquismo vai tomando conhecimento de sua ancestralidade... Como a mãe se vê, como ela se entende e considera o universo que a rodeia são lições de vida celulares para esse filhote em formação. Assim vão se delineando nele aptidões ou deficiências, físicas e psíquicas – veiculadas ou não pela sua herança genética e pelas razões que o fizeram chegar nesse ventre, nessa família humana.

Joyce Mello

Psicóloga – CRP 59271


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